domingo, 26 de outubro de 2008

"É dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lha a vida."

Hoje me estenderei mais um pouco.

Falarei de um livrinho pequenino, daqueles que a gente passa em frente e quase nem vê na prateleira da livraria. Não veria se não se tratasse de um dos livros mais fodas do universo (!!).

Trata-se de "A Hora da Estrela" da Clarice Lispector.



Tá, agora pensas : "tooodo mundo sabe do que se trata esse livro!!". Será?

Como muitos devem saber, essa obra de Clarice é uma grande reflexão sobre o ofício de escrever, tem uma verve metalinguística muito apurada na qual o narrador Rodrigo tece considerações sobre sua atividade e a sua proximidade e distanciamento da anti-heroína Macabéa.

Legal. Mas para mim, a genialidade do texto não se encerra na idéia, muito alardeada nos círculos cults, da metaliguagem de Rodrigo e suas reflexões sobre o ato de escrever. Para mim, a própria narrativa, o desenrolar da história anônima de Macabéa que é a grande sacada de Lispector.

É uma narrativa crua, sem romantismos, sobre uma pessoa que "tanto podia existir como não existir". Macabéa é uma imigrante nordestina como milhares outras, que mora num quartinho no centro da cidade como milhares outros, tem uma vida daquelas que não significam nada, é uma anônima, sem perspectiva, sem futuro. Até quando chega sua hora, sua hora da estrela em que um final perturbado nos impôe reflexões ainda mais aterradoras.

Uma obra com passagens dignas de serem alçadas ao rol de imortais, como:

"Sei que há moças que vendem o corpo, única posse real, em troca de um bom jantar em vez de de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de qeum falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém."

..."A Hora da Estrela" vem influenciando diversas produções artísticas pelo Brasil desde que foi lançado em 77, desde o cinema à música e outros textos literários (meu próprio "O Diário de M.R." é um exemplo). Mas dentre os frutos dessa obra-prima, a que mais se destaca, ao meu ver, é um show que a grande Maria Bethânia fez em homenagem à Clarice Lispector completamente imerso no universo da obra. Com o mesmo nome do livro, o espetáculo "A Hora da Estrela" estreou em 1984 e trazia Bethânia (que a própria Clarice definia como "Faíscas no palco") não como Macabéa, mas como a voz que trazia a epopéia dessa anti-heroína nordestina perdida na cidade do Rio. Dirigido por Naum Alves de Souza, o show também trazia Raul Gazolla como Olímpico e Jurema Strafacci como Glória, num espetáculo que, embora fosse centrado na música (algumas compostas por Chico Buarque, Caetano Veloso e Waly Salomão exclusivamente para o show), trazia grande apelo teatral e, embora não tenha sido lançado como disco, fez história na música brasileira e, graças à uma gravação não oficial, podemos disponibilizar aqui.


(para baixar o show A Hora da Estrela, de Maria Bethânia, clique na imagem acima)
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Enfim, só fiz o texto pra externar minha admiração por esses dois trabalhos primorosos, espero que baixem e gostem do show de Bethânia, o livro é óbvio que eu não vou postar, custa R$ 20,00 em qualquer livraria e, acreditem, vale a pena!

1 Comment:

Taiguara said...

Clarisse e BethÂnia: duas mulheres fantásticas. Verei o show. Obrigado por postar!